Filho com altas habilidades: O que ninguém conta para os pais sobre criar uma criança assim?

Quando chega a identificação de altas habilidades, a reação do mundo costuma ser entusiasta: “que incrível, que talento”. Mas para os pais que convivem com essa criança no dia a dia, a realidade traz perguntas que ninguém responde direito. Este texto existe para essas perguntas.

O que é, de fato, ter altas habilidades

Altas habilidades não são sinônimo de gênio. É um espectro amplo que inclui diferentes tipos de inteligência, desde a cognitiva e acadêmica até a física, artística e musical. Rebeca Andrade e Usain Bolt têm altas habilidades no corpo. Há pessoas que ouvem uma música uma vez e já conseguem tocá-la, sem saber uma única nota. Isso também é altas habilidades.

O que a Ciência do Desenvolvimento Humano confirma é que há um fator genético envolvido: dificilmente uma criança tem altas habilidades sem que esse traço apareça em algum lugar da árvore genealógica.

Há também características que se repetem: velocidade de processamento acima da média, capacidade autodidata, pensamento ramificado que abre várias abas ao mesmo tempo. Uma criança assim pode discutir filosofia, Segunda Guerra Mundial e a morte com profundidade genuína e, uma hora depois, ter uma crise porque o short de uma cor específica não está no guarda-roupa.

Isso tem nome. Chama-se assincronia.

A assincronia que confunde os pais de filhos com altas habilidades

A assincronia é um dos aspectos menos explicados e mais importantes para os pais entenderem. O desenvolvimento cognitivo e o desenvolvimento emocional da criança com altas habilidades não caminham no mesmo ritmo. Cognitivamente, ela pode estar muito à frente. Emocionalmente, ela está exatamente onde está, na idade que tem.

Isso não é fraqueza nem contradição. É uma característica do desenvolvimento dessas crianças. O problema acontece quando os adultos esperam que a maturidade intelectual da criança se traduza em maturidade emocional. Não é assim que funciona.

Além disso, crianças com altas habilidades têm sensibilidade sensorial aumentada. Uma etiqueta de roupa, uma frequência sonora, uma luz piscando no cinema, tudo isso pode gerar desregulação real e intensa. Não é frescura. É o sistema nervoso respondendo a um estímulo que ele processa de forma mais ampla e mais intensa do que o de uma criança neurotípica.

Quanto mais o adulto estiver atento ao que desregula seu filho com altas habilidades, menos episódios de desregulação vão acontecer. Isso se aplica também ao autismo, ao TDAH, à dislexia e às demais neurodivergências.

Os mitos que mais prejudicam crianças com altas habilidades

Perfeccionismo não é intrínseco às altas habilidades. Não existe rastreio genético que justifique isso. O perfeccionismo é resultado da socialização, das expectativas que os adultos constroem sobre uma criança que percebem como inteligente. A família elogia muito as conquistas e critica mais as não-conquistas, porque vê o potencial e acha que ela “poderia fazer melhor”. A escola faz o mesmo. Isso, acumulado nas microinterações do dia a dia, é o que forma o perfeccionismo. A origem está no olhar do adulto, não na neurologia da criança.

Aceleração escolar exige muito cuidado. Há muita coisa a fazer antes de considerar fazer a criança pular de ano. Cognitivamente ela pode ter competência para uma série mais avançada, mas emocionalmente ela tem a idade que tem. Entrar na faculdade aos 16 ou 17 anos, no meio da adolescência, não é necessariamente vantagem. Adaptar o currículo, enriquecer as atividades e garantir tempo de brincadeira livre e autodirigida são caminhos que precisam ser esgotados primeiro.

Cuidado com quem recebe a informação do diagnóstico. Na escola, comunicar é necessário. Na família ampliada, é preciso avaliar. Quando todos sabem que a criança tem altas habilidades, pode surgir uma cobrança coletiva que não deixa espaço para ela errar, se frustrar ou simplesmente ser criança. E quando ela tiver um momento emocional difícil, os adultos ao redor podem não compreender a assincronia e reagir de forma inadequada.

O que a Educação Positiva ensina sobre criar um filho com altas habilidades

Várias alunas da pós-graduação em Educação Socioemocional, Neurociências e Educação Positiva Aplicada relataram que, quando o diagnóstico de altas habilidades chegou, a base que já tinham as protegia. Porque a Educação Positiva já orienta para o respeito ao ritmo individual de cada criança, para o olhar sobre as necessidades específicas de cada uma, para a não adultização e para a não cobrança a partir das expectativas do adulto.

O diagnóstico, nesses casos, não foi um choque. Foi um nome para algo que já estava sendo respeitado.

É exatamente isso que a parentalidade consciente propõe: olhar para a criança que está aqui, não para a criança que se esperava ter. Um filho com altas habilidades não precisa ser o melhor em tudo. Ele pode ser mediano em muitas coisas, pode explorar um interesse e logo querer outro, pode ter dificuldades emocionais intensas e ainda assim se desenvolver plenamente.

O que ele mais precisa é de pais que o vejam como é, não como o laudo diz que ele poderia ser.

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